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Governo à Deriva: A obsessão pela “vingança” do 8 de Janeiro e o perigoso vácuo no Ministério da Justiça

Enquanto o Planalto concentra energia na manutenção da narrativa do “golpe” e na punição exemplar dos réus do 8 de Janeiro, a principal engrenagem da Segurança Pública nacional entra em estado de incerteza, justamente em um momento de múltiplas crises.

Por Jorge Aragão, Reaction News, 10 de janeiro de 2026

O ano de 2026 mal começou e o governo Lula já dá sinais evidentes de desorientação estratégica. O veto integral ao Projeto de Lei da Dosimetria, que buscava individualizar condutas e corrigir penas consideradas desproporcionais impostas a parte dos réus dos atos de 8 de Janeiro deixou claro que a prioridade do Planalto não é a pacificação institucional nem a justiça técnica. A prioridade é política.

Para o núcleo do governo, a narrativa do “golpe” precisa permanecer viva, simbólica e encarcerada até as eleições de outubro. Rever penas, conceder benefícios legais a réus primários ou admitir excessos processuais significaria reconhecer que o discurso do “terrorismo organizado” foi, em parte, inflado. E reconhecer isso desmontaria um dos pilares da polarização política que ainda sustenta o projeto eleitoral do PT.

O veto como bumerangue

O que o Planalto aparentemente subestimou foi o efeito político do veto. No Congresso Nacional, a decisão foi recebida como afronta direta à autonomia do Legislativo. A reação não partiu apenas da oposição ideológica: parlamentares do chamado Centrão, sensíveis ao desgaste institucional e à pressão de suas bases, passaram a articular a derrubada do veto.

Caso isso ocorra “e as chances são reais”, o governo sofrerá sua primeira derrota política relevante em 2026. Mais do que uma derrota legislativa, será um recado simbólico: a narrativa construída em 2023 já não encontra a mesma sustentação dois anos depois.

Acefalia na Justiça

Enquanto o governo concentra esforços na preservação dessa narrativa, negligencia um elemento essencial da administração pública: a gestão. A saída formal do ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, confirmada por meio de pedido de demissão apresentado ao presidente da República, abriu um vácuo perigoso em uma das pastas mais estratégicas do Estado brasileiro.

Oficialmente, a justificativa apresentada foi de caráter pessoal e familiar. Nos bastidores, porém, a saída já vinha sendo discutida há semanas, enquanto o Planalto tentava administrar o impacto político da mudança e negociar um nome de consenso para a sucessão.

O resultado prático é que, em um momento de elevada tensão “com instabilidade na fronteira norte, avanço do crime organizado nas capitais e crescente pressão sobre forças de segurança”, o Brasil se vê, na prática, sem um comando político definido na área da Justiça. A cadeira de ministro passou a ser tratada como objeto de disputa interna: alas do PT defendem um nome de perfil político, com viés eleitoral; setores do Judiciário e da área técnica pressionam por alguém capaz de gerir crises.

Um governo olhando para trás

O quadro que se desenha é o de um governo com prioridades invertidas. De um lado, uma postura punitiva e obsessiva em relação ao 8 de Janeiro, utilizada como instrumento de disputa política e narrativa eleitoral. Do outro, uma incapacidade de oferecer respostas rápidas e coordenadas aos desafios reais e imediatos da segurança pública.

O Brasil entra em 2026 com um governo que insiste em olhar para o retrovisor, enquanto o para-brisa aponta para uma tempestade: fronteiras sensíveis, crime organizado fortalecido, instabilidade institucional e um Ministério da Justiça sem liderança clara.

Quem pagará o preço dessa distração não será a classe política. Será, como sempre, o cidadão comum.