
Exercício realizado durante formação de agentes penitenciários no Espírito Santo levanta questionamentos sobre protocolos de segurança e possíveis excessos
Por Jorge Aragão – Editor-Chefe – 10 de março de 2026
Edição: Reaction News
Reportagem publicada originalmente em 06 de junho de 2015 – 785 acessos no portal jaragao.com.br
Um treinamento realizado durante o curso de formação de inspetores penitenciários no Espírito Santo provocou forte reação entre os alunos e acabou motivando denúncia ao Ministério Público.
Segundo relatos obtidos pela reportagem, instrutores teriam submetido os participantes a um exercício considerado extremo: os alunos foram colocados dentro de um veículo blindado, com ventilação bastante limitada, enquanto ampolas de gás lacrimogêneo eram lançadas no interior do compartimento.
O efeito foi imediato. Gritos, desespero e forte irritação nos olhos e nas vias respiratórias marcaram o exercício.
Apesar da gravidade da situação, os alunos demoraram mais de 30 dias para procurar as autoridades. O motivo, segundo eles, foi o medo de sofrer represálias ou até mesmo de não serem aprovados na formação.
Agora, o pedido é claro: que o Ministério Público investigue se houve abuso ou prática de tratamento degradante durante o treinamento.
O uso do gás e a controvérsia
O gás lacrimogêneo é classificado atualmente como agente químico de controle de distúrbios, amplamente utilizado por forças policiais em todo o mundo.
Apesar da classificação popular de “arma não letal”, especialistas alertam que seu uso exige protocolos rigorosos de segurança.
Manuais técnicos e treinamentos oferecidos pelos próprios fabricantes destacam um ponto crucial:
o gás lacrimogêneo não deve ser utilizado em ambientes fechados ou com ventilação insuficiente, devido ao risco de asfixia e agravamento de problemas respiratórios.
Esse alerta se torna ainda mais sensível quando aplicado em locais confinados ou em presença de pessoas com doenças pulmonares.
A justificativa do treinamento
A Secretaria de Justiça (SEJUS) e instrutores responsáveis pelo curso argumentam que o exercício teria como objetivo preparar os futuros inspetores penitenciários para situações reais enfrentadas dentro do sistema prisional.
Segundo essa linha de defesa, os agentes precisam conhecer na prática os efeitos do gás, já que poderão utilizar o equipamento em operações de controle de motins ou rebeliões.
A justificativa, porém, abre outra frente de debate.
Se o treinamento simula situações reais do sistema prisional, isso levanta questionamentos sobre como e em quais condições esse tipo de agente químico vem sendo utilizado dentro das unidades penitenciárias, que por natureza são ambientes fechados.
Além disso, presídios abrigam populações com alto índice de problemas de saúde, incluindo doenças respiratórias.
Treinamento ou método ultrapassado?
O episódio reacende uma discussão antiga dentro do sistema penitenciário brasileiro: quais são os limites do treinamento operacional e quais métodos ainda fazem sentido no século XXI.
Especialistas em segurança pública reconhecem que agentes penitenciários trabalham em ambientes de alto risco e precisam estar preparados para situações extremas.
Por outro lado, cresce a cobrança por protocolos modernos que conciliem preparação técnica, segurança dos profissionais e respeito aos direitos humanos.
Em muitos países, exercícios que envolvem exposição a agentes químicos vêm sendo substituídos por métodos de simulação menos agressivos.
Assista à reportagem
A reportagem sobre o caso e a entrevista concedida por este jornalista podem ser assistidas no vídeo abaixo.
O material foi originalmente hospedado em outra plataforma e será republicado no YouTube assim que possível.
📺 Vídeo da reportagem
📌 Análise Reaction News
O episódio revela um dilema clássico do sistema penitenciário brasileiro: a necessidade de preparar agentes para situações críticas sem recorrer a práticas que possam ser interpretadas como excessivas ou desnecessariamente arriscadas.
Treinamento é essencial.
Mas treinamento sem protocolo claro pode transformar preparação em controvérsia.
O equilíbrio entre eficiência operacional, segurança e legalidade continua sendo um dos maiores desafios da gestão penitenciária no país.
🧭 Projeto Memória do Jornalismo Independente
Esta reportagem integra o projeto de recuperação do acervo jornalístico produzido por Jorge Aragão, com matérias publicadas ao longo de mais de três décadas de cobertura sobre segurança pública, política e direitos institucionais no Brasil.


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