Flávio Bolsonaro encosta em Lula: a eleição de 2026 mudou de patamar
Por Jorge Aragão / Reaction News / 9 de setembro de 2026
Seis pesquisas eleitorais divulgadas entre o fim de agosto e 9 de setembro de 2026 mostram o mesmo diagnóstico: Flávio Bolsonaro eliminou a vantagem de Lula no segundo turno. Em algumas, aparece numericamente à frente. Em uma delas — o levantamento Gerp/Poder360, com 2.400 entrevistados —, a diferença chega a sete pontos percentuais, fora de qualquer margem de erro. A eleição presidencial brasileira entrou na fase em que cada detalhe pode decidir o resultado.
A fotografia de 9 de setembro: o que dizem os números
O conjunto de pesquisas divulgadas na última semana traça um retrato inequívoco da corrida presidencial. Os dados, compilados abaixo, mostram uma tendência consistente no segundo turno:
| Instituto | Período | Flávio 2º T | Lula 2º T |
|---|---|---|---|
| Gerp / Poder360 | 2 a 8/set | 47% | 40% |
| BTG Pactual / Nexus | 4 a 7/set | 46% | 45% |
| Palver | 9/set | 46% | 44% |
| PoderData / Aya | início/set | 45% | 44% |
| Quaest | 3 a 6/set | 41% | 41% |
| Meio / Ideia | 9/set | 46% | 46% |
O levantamento do Instituto Gerp merece atenção especial. Com 2.400 entrevistados ouvidos entre 2 e 8 de setembro, é um dos maiores da rodada atual. A diferença de sete pontos percentuais no segundo turno — 47% a 40% — supera qualquer margem de erro convencional. Não se trata de empate técnico: é uma vantagem estatisticamente significativa para Flávio, ainda que isolada no conjunto de pesquisas.
A rejeição a Lula nesse mesmo levantamento atingiu 49% — o maior índice registrado entre todas as pesquisas da semana.
Primeiro turno: Lula ainda lidera, mas a margem encolheu
É preciso separar as duas etapas da eleição com clareza.
No primeiro turno, Lula ainda aparece à frente na maioria dos levantamentos. O Datafolha registrou 38% para Lula e 33% para Flávio. A BTG/Nexus encontrou 39% × 35%. A Quaest, 36% × 29%.
Entretanto, dois levantamentos já mostram o primeiro turno empatado ou com Flávio à frente. A Veritá (1 a 4 de setembro) encontrou Flávio com 38,9% contra 38,4% de Lula. A Palver registrou 40% × 39%.
Para vencer no primeiro turno, é necessário superar 50% dos votos válidos — cenário distante para ambos. O caminho de Flávio passa pelo segundo turno, onde o quadro já é de equilíbrio ou vantagem.
A variável Cury: até 12% que podem decidir a eleição
Augusto Cury aparece entre 7% e 12% dependendo da pesquisa — uma fatia grande o suficiente para alterar completamente o resultado.
A pergunta que estrutura a disputa a partir de agora é direta: para onde vão os votos de Cury? Seu eleitorado foi construído nas redes sociais, com perfil próprio, e não pertence automaticamente ao campo bolsonarista. A transferência para Flávio é hipótese plausível, não certeza.
Isso transforma a disputa pelo terceiro lugar em variável estratégica tão importante quanto a briga pela liderança.
Evangélicos, Nordeste e os mapas que separam os candidatos
A BTG/Nexus mostrou Flávio alcançando 45% entre eleitores evangélicos no primeiro turno, com vantagem de 27 pontos no segundo turno nesse segmento: 58% × 31%. Lula mantém domínio no Nordeste e entre eleitores de menor renda.
Quando dois candidatos chegam ao segundo turno dentro da margem de erro — ou com diferença real como aponta o Gerp —, esses nichos deixam de ser tendências e passam a ser decisivos.
Rejeição: os dois candidatos têm teto alto
Nenhum dos dois tem rejeição baixa — e isso complica qualquer projeção de vitória fácil.
| Instituto | Rejeição Lula | Rejeição Flávio |
|---|---|---|
| Gerp / Poder360 | 49% | — |
| Quaest | 53% | 55% |
| PoderData / Aya | 48% | 46% |
| Datafolha | 45% | 47% |
| Meio / Ideia | 46,6% | 45,7% |
Em eleições com rejeição elevada dos dois lados, o segundo turno frequentemente é decidido não por quem o eleitor quer, mas por quem ele menos rejeita. Esse mecanismo — conhecido entre analistas como “voto útil de rejeição” — torna qualquer projeção arriscada.
A curva que importa: Flávio subiu, Lula não acompanhou
Mais do que os números em si, o que se tornou politicamente relevante nas últimas semanas é a direção das curvas.
Há dois meses, Lula apresentava vantagem consistente no segundo turno. Hoje, essa vantagem desapareceu na maioria dos levantamentos — e em um deles, o Gerp, foi substituída por uma diferença real de sete pontos. O movimento foi unidirecional: Flávio subiu; Lula não acompanhou.
A Quaest descreve o fenômeno como uma eleição “calcificada” — polarização crescente entre Lula e o campo político de Jair Bolsonaro, agora representado eleitoralmente por Flávio. Nesse tipo de estrutura, grandes migrações de eleitorado são raras. A eleição se decide na margem.
Avaliação do governo: o fator estrutural que as pesquisas não capturam
Análises da Quaest indicam que a aprovação líquida do governo Lula atingiu patamar negativo — distinto das condições que historicamente favoreceram reeleições ou transferências de votos no Brasil.
Isso não determina automaticamente a derrota do presidente. Mas cria um ambiente em que a oposição pode transformar insatisfação em voto. Se Flávio ancorar a eleição na avaliação do governo, a tendência atual pode se aprofundar. Se a campanha de Lula deslocar o debate para comparação de projetos ou riscos de mudança, o quadro pode se estabilizar.
Os três cenários que se desenham para outubro
Cenário 1 — Lula reage: O presidente recupera parte da vantagem, chega ao segundo turno com capacidade de mobilizar o eleitorado histórico. Eleição permanece aberta.
Cenário 2 — Empate se consolida: Flávio mantém crescimento, chega ao segundo turno nivelado. A eleição é decidida por milímetros — rejeição, abstenção, votos de Cury, desempenho nos debates.
Cenário 3 — Flávio consolida vantagem: A tendência atual — reforçada pelo Gerp — se aprofunda. Flávio chega ao segundo turno com diferença real, mas a rejeição elevada de ambos mantém o resultado em aberto até o fim da campanha.
O Cenário 2 ou 3 é o que o conjunto de pesquisas de hoje melhor sustenta.
Conclusão: a eleição entrou na fase do detalhe
Os dados disponíveis até 9 de setembro de 2026 não autorizam afirmar que Flávio Bolsonaro seja o favorito definitivo. Mas também já não permitem tratá-lo como força secundária.
Flávio encostou em Lula e, no levantamento mais abrangente da semana — o Gerp, com 2.400 entrevistados —, aparece sete pontos à frente no segundo turno. Nos demais, empata ou está dentro da margem de erro.
O que aconteceu nas últimas semanas é politicamente significativo: a eleição de 2026 migrou de uma disputa com líder claro para uma disputa de margem. Debates, segurança pública, economia, abstenção, Nordeste, evangélicos e os votos livres de Cury deixam de ser contexto e passam a ser o resultado.
A eleição, agora, está inteiramente em aberto.
Jorge Aragão é jornalista e analista político. Editor da Reaction News.
Fontes: Gerp/Poder360 (2-8/set/2026) | BTG Pactual/Nexus (4-7/set) | Quaest (3-6/set) | Palver (9/set) | Meio/Ideia (9/set) | PoderData/Aya (set/2026) | Datafolha (set/2026) | Veritá (1-4/set) | Futura/Apex (set/2026)








O dado mais relevante é a convergência das seis pesquisas, especialmente a vantagem fora da margem de erro apontada pelo Gerp/Poder360. Ainda assim, com a eleição de 2026 em fase tão volátil, metodologia, rejeição e capacidade de transferência de votos podem pesar tanto quanto a fotografia atual.